05/06/2026

Campo das Vertentes (MG) aposta em uvas finas

Campo das Vertentes (MG) aposta em uvas finas Foto Fernando Antônio Carvalho

DA AGÊNCIA MINAS

A produção de vinhos finos está em expansão na região do Campo das Vertentes, em Minas Gerais. A atividade, viabilizada pela adoção da técnica de dupla poda da videira, validada e difundida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), tem possibilitado a colheita de uvas finas de qualidade em diferentes regiões do País.

E vem mudando, rapidamente, o cenário vitícola do Estado de Minas Gerais que já conta com mais de uma centena de vitivinicultores e uma área plantada de cerca de mil hectares.

“Temos observado um aumento da produção em diversos municípios do Campo das Vertentes, com alguns produtores já vinificando em Tiradentes e Ritápolis, por exemplo”, afirma o pesquisador Paulo Márcio Norberto, que atua no Campo Experimental Risoleta Neves da Epamig, em São João del-Rei.

Na unidade, onde antes havia apenas experimentos com uvas de mesa, há uma coleção de seis variedades de uvas finas tintas e brancas.

“A Syrah é o carro-chefe, a mais vigorosa, a que melhor se adaptou às áreas de dupla poda e a que atrai o maior número de interessados”, conta o pesquisador.

“Temos recebido visitantes em busca de orientação para começar na atividade. É um momento crucial, quando falamos sobre investimento e tratos culturais. Vale ressaltar que a videira requer diferentes cuidados e aplicações ao longo do ciclo e, que, ainda que possa haver presença de cachos já no primeiro ano, o tempo médio de formação da planta é de três a quatro anos”, acrescenta.

O administrador de empresas Fernando Antônio Carvalho foi um dos que buscou a Epamig antes de implantar o vinhedo. Morador de Belo Horizonte, ele conheceu os vinhos finos mineiros como consumidor.

Campo das Vertentes (MG) aposta em uvas finas Mapa Wikipédia
No alto, vinhedo em propriedade em Entre Rios de Minas e, acima, em vermelho, a região do Campo das Vertentes no mapa de Minas Gerais (Mapa Wikipédia)

“Em 2019, fui com minha esposa a um restaurante português próximo da nossa casa. Pedi um vinho chileno para acompanhar o prato e o dono me sugeriu trocar por um exemplar mineiro. Fiquei surpreso: ´Vinho produzido em Minas Gerais? Sim e de excelente qualidade´. Provei e aprovei. Procurei me informar mais e fiquei conhecendo o trabalho da Epamig e a dupla poda”, relata.

Com a pandemia veio o novo projeto. “Em 2020, com o isolamento social optamos por comprar uma área de dois hectares em Entre Rios de Minas, já com o intuito de plantar uvas finas. Em 2021, procurei a unidade da Epamig na região, que fica em São João del-Rei, e conheci o Paulo Norberto, que me orientou na estruturação da área e na aquisição de mudas, além de me apresentar à equipe da Epamig em Caldas”, diz.

“Plantamos 600 mudas de uvas Syrah adquiridas na Epamig. Apesar de toda a preparação, tivemos dificuldades e precisamos replantar algumas mudas no primeiro ano. Em 2023, colhemos os primeiros 80 quilos de uva e produzimos, minha esposa e eu, 50 garrafas de vinho. A bebida, que oferecemos para alguns amigos, ficou bastante agradável. Faremos o mesmo processo com as uvas colhidas neste ano”, detalha Carvalho.

A partir de 2025, a vinificação será feita na Epamig em Caldas. “Ser acolhido pela Epamig vai nos ajudar a evoluir tanto na estrutura, quanto nos processos”, afirma.

O produtor planeja a expansão do vinhedo e a chegada dos vinhos da Quinta dos Carvalhos ao mercado. “Para o próximo ano, pretendemos aumentar a área plantada e incluir novas variedades. Nosso vinhedo ocupa apenas 1,5 mil m² da propriedade, temos margem para crescer. Também vamos investir na apresentação do nosso produto.”

Carvalho integra a recém-criada Associação dos Produtores de Uva e Vinho de Minas Gerais (Uva-MG). “O objetivo da associação é oferecer possibilidades para produtores de diferentes portes. Unir esforços e fomentar a cadeia vitícola para que todos cresçam”, explica.

O Governo de Minas Gerais anunciou a intenção de estruturar a Rota dos Vinhos para fomentar o enoturismo em oito regiões produtoras no Estado.

A região Campo das Vertentes é um tradicional polo turístico, que reúne atrações históricas, naturais e culturais. A produção de vinhos finos tende a ser mais um diferencial.

“Não precisamos chamar turistas para a nossa região, mas podemos agregar algo mais”, aposta Dênis Gualberto de Paula, proprietário da Vinícola Gervásio Pereira, em Resende Costa.

O produtor, que é médico neurologista, conta que o interesse pela atividade começou ainda na adolescência quando o avô deu a ele uma coleção de cartas de um antepassado da família.

“Descobri que meu tataravô Gervásio Pereira, filho de portugueses, produzia e comercializava vinhos aqui no município. Não tenho informações sobre o tipo e a qualidade desses vinhos, mas fiquei fascinado pelo assunto”, recorda.

Quando estava estudando em São Paulo, Dênis Gualberto conheceu a dupla poda. “Queria voltar para a minha cidade e vi ali uma oportunidade de unir um hobby a algo que poderia ser rentável. Comecei a procura pelas mudas em 2019, mas só em 2022 adquiri os primeiros exemplares das variedades Syrah e Sauvignon Blanc. Plantei metade da área de um hectare e em setembro plantarei a outra metade”, informa.

Dênis Gualberto projeta a primeira colheita e processamento das uvas para 2025. “Espero vinificar a primeira safra na vinícola que vou implantar aqui na minha propriedade. Busquei o apoio da Epamig para saber mais sobre a metodologia de dupla poda e sobre vinificação, e obtive o suporte arquitetônico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) aqui do município para a elaboração da planta da edificação”, conta ele, que é sommelier, formado pela Associação Brasileira de Sommeliers do Rio Grande do Sul, e estuda enologia.

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