18/04/2026

Ladino o djudeo-espanyol: la lingua avlada por los sefardim

Ladino o djudeo-espanyol la lingua avlada por los sefardim Foto Claudio Schapochnik Que Gostoso! 3

por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_ESPANHA*

O título da presente matéria emprestei de um texto da Wikipédia, e a tradução para o português fica “Ladino ou djudeo-espanyol: a língua falada pelos sefaraditas”. Quem eram os sefaraditas? Originalmente eram as pessoas de fé judaica nascidas nos diversos reinos espanhóis – na língua de Cervantes, o termo é sefardí (singular) e sefardíes (plural). As palavras vêm de Sefarad, Península Ibérica em hebraico.

Apenas nas rezas, nos ritos e nas cerimônias religiosas, os sefardíes deixavam de lado o ladino e falavam em hebraico.

Ladino o djudeo-espanyol la lingua avlada por los sefardim Reprodução do site folkmasa.com
No alto, faixa com frases em ladino no bairro judaico de Hervás (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!) e, acima, trecho do Bereshit (Gênesis, em hebraico; primeiro livro da obra fundamental do judaísmo, Torá) em ladino da Bíblia de Constantinopla (1873), com transcrição em letras latinas de Yehuda Sidi e revisão e conversão na ortografia djudeo-espanyola por Avner Perez (imagem reprodução do site folkmasa.com)

Com o édito de expulsão da Espanha assinado pelos Reis Católicos, Isabel e Fernando, em 1492, os sefaradíes levaram o seu idioma para outros lugares onde conseguiram refúgio – outros reinos na Europa, norte da África e Império Otomano, por exemplo.

Em todo o roteiro que fiz na Espanha, sendo em seis cidades integrantes da Red de Juderías de España (Segóvia, Ávila, Béjar, Hervás, Plasencia, Cáceres e Toledo) e ainda em Alcalá de Henares, imaginei cenas onde os sefaradíes falam o seu ladino.

Para mim, o ladino não é difícil de ler e falar. Lembra bastante o espanhol e dá “uns nós” na língua. Não sou filólogo, mas dou humildemente alguns pitacos no idioma dos sefaradíes: não há acentos e a letra “q”, ocorre o uso excessivo das letras “k”, “i” e “y” e, nas palavras que começam com “c”, este é substituído pelo “s”, como em sinko e sielo.

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O prédio com a faixa com frases em ladino em Hervás (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

PESQUISA ACADÊMICA
Vale demais a leitura do trecho abaixo.

“Este idioma, criado pelos judeus espanhóis ainda no território ibérico, era conhecido como ´judeo-español´, como o castelhano falado pelos muçulmanos era chamado ´arábico-español´.

Os ex-vassalos judeus levaram consigo o idioma em que se comunicavam verbalmente nas suas lides diárias, em reuniões familiares e entre amigos, e esta era a língua usada, por escrito, em contratos comerciais, textos com temas religiosos, provérbios, canções, poemas, contos, episódios, piadas, cartas, rezas…

Ao escrever em ladino, seus intérpretes o faziam com letras do hebraico, como observa Olga Borovaya: ´embora fosse uma língua latina, (eles) faziam uso do hebraico cursivo´, como se intencionalmente quisessem que o idioma (por alguns chamado ´dialeto espanhol´) permanecesse secreto e entendido apenas por judeus ibéricos.

Nessa mesma obra, Borovaya observa que ´(…) imigrantes espanhóis e portugueses eram capazes de ler os mesmos textos. Além do fato de que no século 16 esses dois idiomas [espanhol e português] eram mais próximos entre eles do que são hoje, muitos exilados espanhóis passaram algum tempo em Portugal, e as pessoas mais instruídas neste país conheciam castelhano.

De ´judeo-español´, o idioma passou a ser conhecido de muitas formas e na seleção de um termo nesta variedade os estudiosos se dividem. Tracy K. Harris dedica um capítulo de seu livro Death of a Language, The History of Judeo-Spanish destacando os ´scholars´ que preferem este ou aquele nome entre os onomásticos como ladino, judezmo, spaniolit, judeo-spanyol, djudyo, espanyol muestro etc.”

O interessantíssimo trecho é parte do artigo Ladino e sua expressão literária na América Latina, de Regina Igel, publicado no Cadernos de Língua e Literatura Hebraica, Universidade de São Paulo (ISSN 2317-8051 – Número 22 (2022). Regina é professora emérita na University of Maryland, College Park, nos Estados Unidos.

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As mesquitas Santa Sofia e Azul em Istambul: parte da comunidade judaica da cidade é originária da Espanha (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

IMPRENSA LADINA
Nesta viagem à Espanha judaica pré-1492, não ouvi nem li ladino. Acredito que os judeus espanhóis de hoje falem o espanhol. Por outro lado, há ainda muitos falantes do djudeo-espanyol, não como primeira língua, em países da antiga Iugoslávia (Sérvia, por exemplo), Israel, Estados Unidos e Turquia.

Visitei a Turquia em 2014 e fui ao The Quincentennial Foundation – Museum of Turkish Jews, em Istambul. Na exposição permanente, fiquei impressionado ao ver e ler a coleção de antigos e atuais jornais turcos da comunidade judaica turca escritos em ladino. Simplesmente incrível.

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Fachada da Sinagoga Neve Şalom, em Istambul (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
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Detalhe da fachada do templo (foto Claudio Schapochnik Que Gostoso!)

Na mesma viagem, visitei ainda Izmir – Esmirna, em português; uma das maiores cidades do país localizada à beira do Mar Egeu. Assim como Istambul, recebeu sefaradíes.

No final do século 19 e início do século 20, muitos famílias judias turcas e também falantes de ladino foram morar no bairro de Karataş – fala-se Karatash, pois a letra “s” com cedilha (“ş”) tem som de “sh” em turco.

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Placas de trânsito em Izmir, com o nome do antigo bairro judaico de Karataş (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

Lá estão a maior sinagoga da cidade, a Bait Israel (Casa de Israel, em hebraico), e o Asansör (elevador, em turco). O meio de transporte público e atração turística local, pois tem um mirante no alto, foi construído em 1907 pelo rico empresário e filantropo judeu nascido na cidade chamado Nesim Levi. Motivo: facilitar a locomoção das pessoas; o terreno em Karataş é bastante íngreme.

Para fechar o tema da Turquia, só li ladino por lá. Infelizmente não ouvi o idioma.

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O elevador (à dir.) em Karataş e a vista de Izmir (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
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Fachada da Sinagoga Bait Israel, no bairro de Karataş, em Izmir (foto Claudio Schapochnik Que Gostoso!)

A DOCE VOZ DE FORTUNA
E como escutar o ladino na forma de música? No You Tube e nas plataformas musicais há muitas opções. Minha dica, caro(a) leitor(a), com respeito aos demais intérpretes, é a seguinte: ouça os CD´s do sensacional trabalho da cantora paulistana Fortuna – nome artístico de Fortunée Joyce Safdié; sua família é judaica-árabe, mais precisamente de Alepo, na Síria. Seu pai, Edmund Sadfié, foi um dos fundadores e sócios do Banco Cidade (1965), em São Paulo. Seus ouvidos vão agradecer demais ao ouvi-la com sua voz doce e para lá de bela.

Imagino que qualquer pessoa vai sentir emoção ao escutar canções naquele idioma de parte do povo judeu que, após atravessar os séculos, continua vivo. Ainda que com cada vez menos falantes. Mas graças a muita gente, inclusive na academia, como a professora Regina Igel, o ladino é estudado e pesquisado.

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Capa do encarte do CD da cantora Fortuna (imagem reprodução do site)

Em uma viagem a Israel no início dos anos 1990, Fortuna conheceu o cancioneiro ladino e mergulhou, apaixonadamente, neste idioma por meio da música ao voltar ao Brasil.

Em 1993, Fortuna lançou seu primeiro CD, La Prima Vez – que marcou o início de uma linda carreira. A cantora e pesquisadora presenteou ao público, com louvor, sua paixão pelas canções em djudeo-espanyol. Na década de 1990, cheguei a assistir um ou mais de seus shows. No palco, o visual também impressionava: ela usava elegantes roupas sefardíes e árabes.

Ladino o djudeo-espanyol la lingua avlada por los sefardim Imagem Reprodução 3
Capa do primeiro CD de Fortuna (imagem reprodução do site)

E assim foi no decorrer dos anos, com mais CD´s e apresentações, quase todos sob a batuta artística de Iacov Hillel (1949-2020) – diretor de teatro e iluminador de origem judaica.

Quando trabalhava no início da Rádio Trianon AM 740, no Edifício Gazeta na Avenida Paulista, com a direção de Jornalismo do icônico Fernando Vieira de Mello, fiz a sugestão (aprovada pela produção) de trazer Fortuna para dar uma entrevista no programa liderado pelo jornalista Orlando Duarte, o Eclético. E assim a conheci pessoalmente. Conversamos um pouco – fiz questão de dizer que a ideia foi minha – e depois ela foi levada ao estúdio.

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Letra de música em ladino do CD Novos Mares, de Fortuna (imagem reprodução do site)

Com raízes na Música Popular Brasileira e vencedora de alguns prêmios, Fortuna foi vocalista de Chico Buarque e cantou com Toquinho. Entre outras atividades, incluindo aí programas de rádio e shows para crianças, ela começou recentemente a carreira de chazanit – palavra hebraica para cantora litúrgica, onde desenvolve a atividade em algumas sinagogas.

Não sei se Fortuna já apresentou seu trabalho musical ladino na Espanha. Mas fico imaginando a grandiosidade que seria ela cantar por lá, sobretudo nas cidades associadas à Red de Juderías de España. Num palco em frente ao rio Ambroz, no bairro judaico da graciosa cidade de Hervás, os espanhóis iriam curtir e agradecer – efusivamente.

SERVIÇO:
Turismo da Espanha
Red de Juderías de España
Fortuna – página oficial

*O QUE GOSTOSO! viajou a convite do Turismo da Espanha e da Red de Juderías de España

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