por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Gordes, Luberon/FRANÇA*
De repente, vi um ônibus e muitos carros parados no lado direito da estrada. E olhei diversas pessoas fotografando, fazendo selfies e observando atentamente à frente. Para onde que elas estavam olhando?
Aí que, de fato, caiu a minha ficha… Estava em Gordes – fala-se Gôrde em francês.
Observava, através da janela do carro, aquele vilarejo que talvez seja o (grifo meu) cartão-postal da região de Luberon – liberrôn, na pronúncia francesa –, na Provence-Alpes-Côte d´Azur localizada no Sudeste da França.


Ao ver aquelas pessoas fotografando, vendo o centro de Gordes e, ao fundo, a montanha do Luberon, que é parque natural, entendi perfeitamente o motivo daquela paisagem “inundar” a internet. Porque é belíssima mesma!
Mais tarde, já presente no mirante na estrada, ao observar o cenário, vi basicamente três cores: verde, pois Luberon é verdejante mesmo; azul, do céu praticamente sem nuvens; e ocre, das edificações feitas com a rocha da montanha local. E, por alguns minutos, fiquei enfeitiçado com aquela paisagem.


DO SÉCULO 11
Sim, o município desenvolveu-se a partir de um castelo, o Château de Gordes, erguido no alto da colina.
A partir do mirante da estrada dá para ver parte do castelo.
As primeiras menções do edifício datam de 1031. Possivelmente foi construído das ruínas de uma antiga fortificação.


Acima, detalhes do prédio do castelo, que é do início do século 11 (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
No decorrer dos séculos, o château teve vários usos. Desde 1811, é propriedade do município. Atualmente tem a função de espaço cultural, pois abriga exposições. Lá também fica o escritório de turismo da cidade.
O outro ponto culminante que dá para observar desde o mirante, na estrada, é a torre da Igreja de São Firmino – Église Saint-Firmin, em francês. Construída no século 18, o templo católico é dedicado ao padroeiro da cidade.
No centrinho de Gordes, o movimento de turistas era bastante grande naquele final de manhã de um dia bastante quente e ensolarado de junho de 2025.

O legal nesta parte foi caminhar pelas ruelas calçadas de pedra, ver os prédios antigos, entrar nas lojas, enfim, conhecer o lindo lugar – listado nos Vilarejos Mais Belos da França.
GORDES SUBTERRÂNEA
Valeu demais conhecer ainda as cavernas do Palácio de São Firmino – Les Caves du Palais Saint-Firmin, em francês.
As cavernas têm esse nome pois ficam sob o Palácio de São Firmino, uma antiga mansão renascentista.


“Distribuído por sete níveis e com um desnível de quase 20 metros, este extraordinário complexo inclui cerca de 50 cavernas, algumas das quais ligadas por corredores e escadas; outras abertas ao ar livre. Abrigam lagares de azeite, cisternas, um magnífico forno de pão e várias salas utilizadas como armazém: todo um patrimônio relacionado com a antiga vida artesanal da aldeia”, explica o site oficial da atração.
“O que é evidente neste sistema construtivo é a riqueza de estilos: as caves, provavelmente antigas pedreiras no início, foram desenvolvidas entre os séculos 11 e 18 e importantes estruturas românicas ainda podem ser vistas ali.”

As cavernas podem ser visitadas desde 1999 graças a um hercúleo e cuidadoso trabalho arqueológico realizado entre 1960 e 2000 e, frisa o texto do site da atração, “ainda não concluído”.
Caminhar neste complexo de cavernas foi espetacular e super agradável – graças à temperatura bem mais baixa que a registrada no exterior.
Ao sair das cavernas, virando à esquerda na rua, outro espetáculo, desta vez da natureza, é anunciado: o mirante com a belíssima vista do verdejante Luberon. Sensacional!
No mais, Gordes reúne diversos restaurantes e praças com árvores que garantem algum tipo de conforto térmico.

CHAGALL VIVEU NO VILAREJO
Um dos maiores artistas plásticos do mundo, Marc Chagall (1887-1985) viveu um período em Gordes com sua esposa, Bella, e a filha deles, Ida, no âmbito da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A família Chagall, judia, permaneceu no vilarejo de Luberon em 1940 e 1941.

Com a queda da França frente ao exército nazista, em 1940, o país foi dividido em duas zonas depois da assinatura de um armistício entre os franceses e os nazistas: uma ocupada pelos alemães e uma com um regime colaboracionista (França de Vichy). Essa divisão perdurou até 1944.
Gordes ficava sob a administração desse governo títere, sob a liderança do marechal Pétain.
Então, a família não estava 100% segura por lá. Mesmo assim, Chagall realizou vários trabalhos no vilarejo.

Em 1941, Chagall, Bella e Ida conseguiram fugir para os Estados Unidos, país onde a família se exilou.
Outro pintor, também judeu, não teve a mesma sorte. Foi o polonês Oser Warszawski (1898-1944), que ficou em prisão domiciliar em Gordes em 1942, junto com a esposa. A informação é do Musée d´Art et d´Histoire du Judaïsme, em Paris. Lá continuou produzindo.
Em 1943, conseguiu fugir para a Itália. Em Roma, foi capturado pelos nazistas em 1944 e deportado para Auschwitz, onde foi assassinado no mesmo ano.


EMILY EM GORDES
Gordes encantou a equipe de produção da série Emily em Paris, da Netflix.
Excelente para a cidade, a região de Luberon e a França.
Uma sequência em um dos episódios da terceira temporada mostra um almoço de Emily (Lily Collins) com o chef Gabriel (Lucas Bravo) no restaurante L´Esprit du Luberon – nome fictício.

O real nome da casa é Glover Gordes, liderado pelo chef Jean-François Piège. A casa fica dentro do luxuoso hotel Airelles Gordes.
Passei em frente à entrada do hotel, bem singela, por sinal. Mas o que se descortina passando por aquela porta… Emprestando o título da música de Ary Barroso e Luiz Peixoto, interpretada lindamente por Gal Costa, é Um Luxo Só. Foi a impressão que tive ao navegar pelo site do Airelles.
Ah, Gordes… Imperdível!


*O QUE GOSTOSO! viajou em Luberon com apoio do Destination Luberon, representado no Brasil pela CC Hotels, e seguro de viagem Intermac
SERVIÇO:
Les Caves du Palais Saint-Firmin
Rua du Belvédère, 84, Gordes, França
www.caves-saint-firmin.com
















