04/06/2026

Sabor de SP: Quilombo nutre visitante em dialeto

Sabor de SP Quilombo nutre visitante em dialeto 8 Foto Claudio Schapochnik_Que Gostoso!

por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Salto de Pirapora/SP*

Na minha primeira visita a uma comunidade quilombola no País, a do Quilombo Kimbundo Cafundó, em Salto de Pirapora – distante 120 quilômetros de São Paulo –, entrei no salão do centro de visitantes.

Andei até o fundo, pertinho da cozinha. Lá havia uma mesa posta com pratos e algumas panelas tampadas. Quase tudo identificado em pedaços de papel branco escritos numa linda caligrafia à mão com caneta de tinta azul. Bilíngue.

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No alto, prato do meu almoço no quilombo e, acima, a mesa com as delícias feitas para a refeição (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
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Mapas de Angola e do Brasil: cupópia tem origem angolana (mapa/Google Maps)

Na primeira linha, as plaquinhas estão em um dialeto chamado cupópia, que vem do grupo de línguas bantu – originário de Angola, na África.

Na segunda linha, logo embaixo, as plaquinhas estavam em português.

Dois exemplos: “Massango/Arroz” e “Mutombo/Mandioca”.

Adorei ser recebido assim, super original, de uma forma linguístico-culinária por três simpáticas integrantes da comunidade quilombola: a cozinheira Lucimara Rosa de Aguiar, sua filha, Amanda, e sua irmã e poeta, Lucileine Rosa de Aguiar.

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Lucileine, Amanda e Lucimara: o trio que recebeu o grupo do Sabor de São Paulo no quilombo posa na Capela de Santa Cruz (foto Claudio Schapochnik_Que Gostoso!)
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Aspecto do quilombo, com rua interna (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

“É Lucileine; não Luciene”, frisou ela olhando para mim, sem estar brava (juro), quando escrevia o nome dela no meu caderno.

Sim, sou orgulhosamente old school: uso sobretudo o bloco/caderno e a caneta no meu ofício jornalístico.

Nada contra quem usa somente os ouvidos e os olhos – as vezes também apenas os uso – ou o celular para gravar. Todos são válidos.

O almoço – o segundo do dia, pois já havia almoçado no excelente Ranchinho do Turquinho – foi o início de uma visita pra lá de interessante em uma parte da enorme área do quilombo, de 218 hectares. Um hectare equivale a 10 mil metros quadrados.

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No mapa do Estado de São Paulo, o brasão de armas da cidade e a localização do município (mapa/Wikipédia)

O Quilombo Kimbundo Cafundó integra a Região Turística Histórias e Aventuras da Rota Gastronômica Histórias e Aventuras, Veredas e Mananciais.

Essa, a rota número 12, figura no maior programa de valorização da gastronomia paulista – o Sabor de São Paulo. Uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria de Turismo e Viagens (Setur-SP), em parceria com o Mundo Mesa – ligado à revista Prazeres da Mesa – e o Senac-SP.

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O uíque do guaxáuma (doce de abóbora, em português): a sobremesa do almoço (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

DO SÉCULO 19
A história do Quilombo Kimbundo Cafundó vem do final do século 19. O ex-escravizado Joaquim Manoel de Oliveira Congo recebeu a terra do seu antigo senhor.

Lá, Congo viveu com a esposa, Ricarda, e filhas, Antônia e Ifigênia. Com a morte dele, a terra ficou para suas filhas e, depois, para os seus descendentes.

Atualmente, “45 famílias vivem no quilombo e aqui, entre outras atividades, atuamos na agricultura e, recentemente, com o Turismo Rural, recebendo visitantes interessados em nossa rica história e cultura”, disse Lucileine.

O quilombo está localizado a 12 quilômetros do centro de Salto de Pirapora, na área rural do município.

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O salão do Centro de Visitantes (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
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Terreno preparado para a lavoura (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

Antes ou depois do segundo almoço maravilhoso, visitei, com o grupo do Sabor de São Paulo, a Capela de Santa Cruz.

Lá há algumas imagens, como as de Nossa Senhora Aparecida e São Benedito, e fotografias de moradores que já morreram.

“Na nossa comunidade, em relação à religião, temos pessoas católicas, crentes e da umbanda”, afirmou Lucileine, que nesse momento declamou um longo poema bilíngue cupópia-português de sua autoria.

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Lucileine declama sua poesia em português e cupópia (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
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Na parede está escrito Terra Preta, na tradução para o português do dialeto cupópia (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

Ainda no âmbito do Turismo Rural, ela conta que o quilombo recebe visitantes para várias oficinas – “ao valor de R$ 20 por pessoa”. Já o almoço sai “por R$ 25 o prato feito”.

Os valores são de 29 de julho de 2025, dia da minha estada por lá. Podem ter sido reajustados…

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Paçoca de carne com farinha de milho, guisado de carne com mandioca e arroz: pratos do almoço (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

EXCELENTE ALMOÇO EM CUPÓPIA
O cardápio da refeição estava demais, super raiz e, o melhor, super saboroso. Que gostooooooso!

Antes de comer, pedi para a cozinheira (de mãos cheias), a Lucimara, me traduzir alguns nomes de alimentos do português para o cupópia.

Vamos lá: “feijão é chipoquê; arroz, massango; batata doce, mutombo uíque; água, vava; açúcar, uíque; abóbora, guaxáuna; e peixe, maji”.

Incrível!

Ouvi alguns diálogos entre as irmãs em cupópia. Não entendi nada.

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O suco servido na refeição (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

O dialeto é praticado por muitos dos habitantes do quilombo no cotidiano. “Ensinamos também às crianças, é fundamental”, destacou Lucimara.

No almoço, havia batata doce, arroz, mandioca frita, paçoca de carne com farinha de milho e um cozido de carne com mandioca. Sobremesa: doce de abóbora. Para beber, um suco de alfavaca, cravo em folha e suco de limão. Que gostooooooso!

Fiz um prato com batata doce, mandioca frita, paçoca de carne com farinha de milho e cozido de carne com mandioca. Comi tudo, que estava extremamente saboroso. Que gostooooooso!

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Travessa de batata doce (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)
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Travessa de mandioca frita (foto Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

Batata docinha, mandioca frita cremosa por dentro, paçoca de sustança e pedaços macios de carne num verdadeiro guisado de mandioca. Tudo feito com carinho, história e cultura e em dialeto cupópia. Que gostooooooso!

Experiência pra lá de ímpar, maravilhosa. Super recomendo a visita, com almoço, no Quilombo Kimbundo Cafundó.

*O QUE GOSTOSO! viajou a convite da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP), em parceria com o Mundo Mesa e Senac-SP

SERVIÇO:
Quilombo Kimbundo Cafundó
Rua Cinco, 3, Salto de Pirapora/SP
Whatsapp: (15) 99705-8885
Instagram

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