por Claudio Schapochnik_Jundiaí/SP
No início do mês passado, eu e minha família aproveitamos um domingão de tempo lindo e fomos almoçar no interior próximo de São Paulo. O velho e bom bate-e-volta. Escolhemos Jundiaí. Distante cerca de 60 quilômetros da capital paulista pela rodovia Anhanguera, a cidade foi destino de muitos imigrantes italianos. É conhecida também pela produção de frutas e vinhos e possui roteiros de turismo rural. Por lá almoçamos no Restaurante e Adega Sítio Fontebasso, uma síntese do que escrevi linhas acima. Gostei bastante, pois oferece comida saborosa num lugar bonito — mas tem de chegar cedo, se não pega fila, que pode demorar.
A verdadeira saga no Brasil dos Fontebasso, família de gente trabalhadora, começou em 1887, quando o italiano Santo Fontebasso imigrou da região do Vêneto para o interior paulista. Ele, ainda solteiro, trabalhou numa fazenda de café na cidade de Itatiba e, depois, quase voltou à Itália. Pelo conselho de um amigo, mudou de ideia e comprou uma propriedade no bairro de Caxambu, em Jundiaí. Para lá ele se mudou já casado, com Matilde Paschoalotto, e com sua família. E o negócio com a uva e o vinho só prosperou.
Mais de um século depois, em 2012, os descendentes do casal Santo e Matilde tiveram a ideia de abrir um restaurante. O plano se concretizou sete anos mais tarde, com a inauguração da casa. No comando está Vitor Fontebasso, da quinta geração da família.


O restaurante ocupa um galpão defronte a um amplo gramado. O lugar é bonito, com clima total de campo. Assim que você entra na propriedade, há um estacionamento à direita e a adega à esquerda, onde vale a visita após o almoço para comprar vinho e suco de uva. Uma estrada leva ao restaurante e a outro bolsão, bem maior, para os carros estacionarem.
Como escrevi no início deste texto, há que chegar cedo se você tiver fome. Eu e minha família chegamos por volta do meio-dia e faltavam poucas mesas para o estabelecimento lotar dentro do possível, por causa dos normas de distanciamento devido à pandemia de Covid-19.

LASANHA: TRÊS TAMANHOS; NA VERDADE, TRÊS PESOS
Conseguimos uma mesa e já fizemos o pedido do prato principal: a lasanha, um dos ícones do menu do restaurante. Todas as lasanhas da casa, está escrito no cardápio, levam cerca de uma hora até chegar à mesa. Pedimos a de quatro queijos (massa caseira, molho branco, muçarela, catupiry, provolone, gorgonzola e parmesão ralado). Também pedimos uma salada, que chegou rapidinho. Para beber, água e suco de uva da casa (bom).
Os sabores das lasanhas (bolonhesa; queijo e presunto; quatro queijos; berinjela à bolonhesa; e berinjela com presunto e queijo) são apresentadas de uma forma que nunca tinha visto antes: por peso. Há três categorias: de um quilo, de 2,5 quilos e de cinco quilos. Caramba… Lasanha de cinco quilos! A nossa, de quatro queijos, foi de 2,5 quilos ao preço de R$ 88. “Será que exageramos?”, pensei logo após o garçom anotar o pedido. Bem, se sobrar, a gente pede pra embrulhar. Mas não foi necessário…
CARDÁPIO CRIATIVO: ÍTALO-CAIPIRA
O menu, literalmente, é um grande destaque do restaurante. Os títulos das seções estão escritos no ítalo-paulista na versão contemporâneo. É criativo, engraçado e, só se o leitor for muito carrancudo, chato e sem graça, não vai rir.
Essa forma de comunicação foi amalgamada após a chegada de milhares de italianos a partir do final da segunda metade do século 19 ao Brasil, que foram trabalhar sobretudo nas fazendas de café no interior paulista. O ítalo-paulista era o dialeto desses trabalhadores já residentes há muito tempo e seus descendentes na região e também na capital paulista, já que misturavam o italiano ou o dialeto de sua região com o português, no caso o falado no Estado de São Paulo.
Ao ler as seções do cardápio do restaurante, lembrei-me automaticamente de Juó Bananére. Este era o pseudônimo do escritor, poeta e engenheiro paulista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (Pindamonhangaba, 1892 — São Paulo, 1933). Apesar de não ter raízes italianas, Machado escreveu “As Cartas d´Abax´o Pigues” no jornal O Pirralho, entre 1911 e 1917, em ítalo-paulista. São textos muito engraçados e, muitas vezes, difíceis de ler numa mistura macarrônica de italiano, português e sei lá mais o quê.


Aos interessados em saber mais sobre Juó Bananére, o ítalo-paulista e as cartas sugiro a leitura de Juó Bananére: As Cartas d´Abax´o Pigues, de Benedito Antunes (Editora Unesp, 1998). Um livro sensacional.
Voltando ao cardápio do restaurante Fontebasso, seguem os nomes das seções: “Os vinhos que nóis faiz”; “Pá nóis vê o mundo girá”, com as bebidas alcoolicas; “Árco cum limão isprimido i açuca”, com as caipirinhas e caipiroskas; “Pá nóis num ficá beubo”, com sucos, águas, refrigerantes; “Pá nóis entorta o caneco”, com as cervejas; “Pá acumpanhá”; “Uns mato sardave”, com as saladas; “Pá enche a pança”, com as massas — meia porção com 500 g e porção inteira com um quilo; e “Pá petiscá” — meia porção com 500 g e porção inteira com um quilo, que pode ser isca de tilápia, linguiça, panceta e polenta etc.
No menu há ainda regras para atender clientes com restrições a glúten e lactose e que tenham dieta vegetariana. Muito bacana.


O ALMOÇO
Depois de comer a salada e cerca de uma hora depois do pedido, o garçom trouxe a lasanha, que chegou linda numa telha. Assim que a coloca na mesa, ele maçaricou a cobertura de parmesão. Um show a parte que deixou essa parte da massa crocante.
A lasanha tem a massa leve e bastante recheio. Deu pra sentir todos os queijos ali presentes. Gostei, valeu. Minha esposa não quis, mas eu e meus enteados repetimos. Que gostooooooso! Raspamos a telha.


Com o almoço pago, fomos à adega e compramos vinho e suco de uva. Por falar em vinho, o restaurante cobra taxa de rolha em R$ 30.
O almoço, o ambiente rural e as risadas que dei ao ler o cardápio por causa do ítalo-paulista valeram. Foi um programa muito legal naquele domingo de sol no Sítio Fontebasso. Super recomendo e pretendo voltar.



SERVIÇO:
Restaurante e Adega Sítio Fontebasso
Avenida Humberto Cereser, 7.405, Caxambu, Jundiaí/SP
Atende aos sábados, domingos e feriados
Horários: ligue, escreve ou veja no Instagram
Whats App: (11) 97205-2698
Instagram

















1 Comment
LILIANA
02nd abr 2025Meu nome é Liliana, sou prima do Vítor, do Sítio Fontebasso. Cheguei até sua resenha enquanto procurava uma imagem do sítio para um relatório e, para minha surpresa, acabei me deparando com seu texto!
Fiquei muito feliz em saber que gostou da forma como montamos os títulos do cardápio. Confesso que ri ao ler sua observação, porque essa era exatamente a intenção: deixar tudo mais leve e proporcionar uma experiência divertida para os visitantes. Fico contente que tenha curtido! 😊 “Òia que agora ti cunvido pra mór de isprimentá uns bifão novo cum quejo e umas batata chique cum arroiz que tão fazeno, rapaiz…é de encher a pança e sair rolando. Tem tamém uma caipirinha di mato, num sei se cunhece, caipirinha di rucula, é de bebê i apraudi di pé.”.