por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Segóvia/ESPANHA*
O imponente trecho de quase um quilômetro do aqueduto romano, que se estendia por 16 quilômetros, marca de forma única e icônica a paisagem no centro da linda e vibrante Segóvia. Milhões de turistas visitam anualmente a cidade com o objetivo também de conhecer essa magnífica obra do Império Romano. Distante cerca de 90 quilômetros da capital espanhola, Madri, na Comunidade Autônoma de Castilla y León, a cidade guarda e promove ainda o patrimônio (imaterial e material) judaico medieval. O município é associado ao consórcio Caminos de Sefarad – Red de Juderías de España.


A palavra Sefarad, além de significar Espanha em hebraico, dá origem ao gentílico sefardí. A palavra designa os judeus nascidos na Espanha e seus descendentes, após a expulsão dessa comunidade do reino espanhol em 1492, que se espalharam depois para Portugal e para outros pontos da Europa e do Mar Mediterrâneo. Em português, o vocábulo ganhou versões como sefardita e sefaradita.
Judería é a palavra em espanhol – e judiaria em português – que define um bairro onde a maioria dos habitantes é israelita. Portanto, bairro judaico.



Patrimônio da Unesco, Segóvia abrigou uma comunidade judaica por cerca de 300 anos. Documentos atestam a presença de 70 judeus no início do século 13. Os resquícios da comunidade são interessantes.
Vale destacar que Segóvia tem um lugar de destaque não somente na história espanhola, mas na história judaico- espanhola. Na Igreja de São Miguel, a nobre Ysabel, posteriormente grafado como Isabel, a Católica, foi proclamada rainha de Castela, passando a usar o nome de Ysabel 1ª de Castela, em 13 de dezembro de 1474. Ela se casou cinco anos antes com o rei Fernando 2° de Aragão.


O casal, conhecido como Reis Católicos, deu início ao processo de unificação que viria a formar o Reino da Espanha. Em 1492, portanto no reinado de Isabel e Fernando, caiu o último território ainda nas mãos dos muçulmanos logo no começo daquele ano: Granada, no Sul. Dessa forma, os espanhóis acabaram com a dominação islâmica iniciada em 711 e concluindo a chamada Reconquista.
Ainda no mesmo 1492, em 31 de março, Isabel e Fernando assinaram o Édito de Alhambra – o ato legal do Estado expulsando os judeus da Espanha. O antecessor da rainha Isabel, Henrique 4° de Castela, reinante entre 1554 e 1574, quando morreu, protegia os judeus, assegurou a guia de turismo Madalena. Ela acompanhou o grupo do qual fiz parte em Segóvia.


SEGÓVIA JUDAICA
A exploração deve ser iniciada pelo Centro Didático da Judería, na área do antigo bairro dos judeus. A instituição localiza-se na antiga casa do rabino e banqueiro segoviano Abraham Seneor (1412-1493). Convertido ao cristianismo – condição imposta àqueles judeus que quiseram continuar na Espanha após a expulsão dessa comunidade em 1492 –, Seneor passou a se chamar Fernando Peres Coronel. Ele morreu dois meses após a conversão. Não deve ter aguentado a brutal e profunda “paulada” espiritual e cultural à qual foi submetido forçosamente, na minha atrevida interpretação.
Após a morte de Seneor, a casa foi comprada por outro judeu converso ao cristianismo: o médico e filólogo segoviano Andrés Laguna (1499-1560).



Ocupando uma grande área, com um poço no pátio, a outrora residência de Seneor expõe objetos e traz painéis com a história dos judeus segovianos. Portanto, o centro municia o turista a desfrutar com mais propriedade da Segóvia judaica.
Vale destacar que a própria cidade e a Red de Juderías de España atuam de forma significativa na identificação, por meio de placas, mapas e pequenos textos, de logradouros relacionados à presença judaica. Faz toda a diferença.
Interessante que, parece ser uma tradição espanhola, já que vi isso em várias cidades, os nomes das ruas são pintados em azulejos e, não raro, possuem ainda alguma imagem.



PELAS RUAS
Depois do Centro Didático da Judería, a pedida é andar e se perder pelas ruas estreitas da antiga judería.
No caminho está a Igreja de Corpus Christi — a Antiga Sinagoga Mayor, erguida no século 13. Oito décadas antes da expulsão, em 1412, o bispo Juan Vázquez tomou o prédio e o entregou ao mosteiro agostiniano de Santa María de Párreces. Trata-se de uma reconstrução, pois o edifício original pegou fogo em 1899. Atualmente pertence às monjas da ordem de Santa Clara do convento de Corpus Christi.
No momento da caminhada pelo bairro judaico, a igreja estava fechada. Entretanto, anos atrás visitei o local. O interior ainda tem traços de uma sinagoga.



Segóvia possui trechos de uma imponente muralha. Passando de dentro, onde ficava o bairro judaico, para fora, por meio da Porta de San Andrés, há o acesso às ruínas do antigo cemitério israelita. Chega-se ao local depois de atravessar a pequena ponte sob o arroyo (riacho) Clamores. Toda a região é bastante arborizada, onde os segovianos passeiam com seus cachorros ou caminham. As sepulturas foram saqueadas após 1492. Restam apenas ruínas.
Próximo do campo santo, do outro lado do riacho, ficavam ainda o abatedouro kasher, que segue as normas relativas à alimentação dos judeus, e o curtume da comunidade.


MAIS O QUE CONHECER E GASTRONOMIA
Dois dias são suficientes para conhecer Segóvia e a herança judaica da cidade – com calma.
Devem ser visitadas a suntuosa Catedral, erguida no século 16 em estilo gótico tardio, e o Alcázar, antiga fortaleza árabe, resquício do período mouro espanhol, que tornou-se palácio real. O acervo de arte completa bastante o interesse da visita judaica.



Como sugestão de hospedagem, fiquei no Hotel Spa La Casa Mudejar Hospedería. Um bom lugar com café da manhã incluído e localização excepcional: pertíssimo da Plaza Mayor e Catedral, “colado” ao bairro judaico e situado na rua Isabel a Católica – seguindo em direção à rua Juan Bravo, e seguindo esta via, chega-se ao cartão-postal do aqueduto romano. Nessa gostosa caminhada, por essas duas ruas peatonales (só para pedestres), há mais patrimônio histórico, várias lojas e diversos bares, cafés e restaurantes.

No hotel em que me hospedei funciona o El Fogón Sefardí Restaurante. De olho nos turistas judeus, o estabelecimento oferece um cardápio sefaradi (€ 36,50 por pessoa). O menu me causou grande estranheza pela opção de escolher como principal o guefilte fish.
Trata-se de um bolinho de peixe cozido típico da culinária judaica asquenazita, do… Leste da Europa. Prato consumido, por exemplo, pelos judeus poloneses. Para efeito de distância: a capital da Polônia, Varsóvia, dista cerca de 2,8 mil quilômetros numa viagem de carro desde Madri, informou o Google.
Caso fosse almoçar o cardápio, sem dúvida, iria no tajine de cordeiro com mel e ameixas secas como principal. Este prato, sim, tem tudo a ver com a cultura judaica, no caso, ligada ao Norte da África – destino também escolhido pelos judeus como refúgio pós-1492. Acredito que o deslize do guefilte fish possa ser interpretado como uma boa vontade do restaurante em agradar os judeus.




Na minha estada no hotel, tive a oportunidade de provar três itens do cardápio sefardí: filikas, espécie de salgado de massa fininha assado e recheado de vegetais; bienmesabe, bolo de chocolate; e vinho tinto kasher espanhol produzido na região catalã de Penedès, que detém uma Denominação de Origem Protegida (DOP). Adorei o salgado, crocante, e a bebida, suave. Que gostooooooso!



Pelas ruas Isabel a Católica e Juan Bravo, vi muitas vitrines de docerias e presuntarias, com produtos bastante apetitosos, mas não houve tempo de prová-los.


Segóvia vale, sim. É demais. Que gostooooooso!
SERVIÇO:
Turismo da Espanha
Red de Juderías de España
Catedral de Segóvia
Alcázar de Segóvia
Hotel Spa La Casa de Mudejar Hospedería
Penedès DOP
*O QUE GOSTOSO! viajou a convite do Turismo da Espanha e da Red de Juderías de España
















