18/04/2026

Maurícia Kuit relembra cerveja tomada no Brasil-Holandês

Maurícia Kuit relembra cerveja tomada no Brasil-Holandês 1 Foto Claudio Schapochnik_Que Gostoso

por CLAUDIO SCHAPOCHNIK*

A Cervejaria Nacional, no bairro de Pinheiros (Zona Oeste de São Paulo), lançou nesta terça (11) mais uma cerveja com bastante história por trás. É a Maurícia Kuit: uma recordação à primeira cerveja maltada produzida em solo brasileiro durante o Brasil-Holandês (1630-1654). Neste período, a holandesa Companhia das Índias Ocidentais invadiu e dominou parte do Nordeste com interesse na produção e exportação de açúcar.

A Maurícia Kuit é resultado da parceria de dois feras: Eduardo Marcusso, doutor em geografia, pesquisador do Brasil-Holandês e sommelier de cervejas, e Marcos Braga, mestre-cervejeiro da Cervejaria Nacional.

Se você ao ler o nome da cerveja, Maurícia Kuit (cuja pronúncia, em neerlandês, deve ser algo como “kaut”), associou ao masculino Maurício e, depois, deduziu ao Maurício de Nassau, já que se trata do Brasil-Holandês, está completamente certo.

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No alto, Marcos Braga e Eduardo Marcusso brindam à Maurícia Kuit e, acima, a cerveja produzida na Cervejaria Nacional (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

A primeira cerveja maltada produzida em solo brasileiro foi, portanto, mais uma das inovações da administração do militar alemão João Maurício de Nassau-Siegen (1619-1679), nome completo dele, governador do Brasil-Holandês de 1637 a 1644.

O nome da bebida é uma referência à Cidade Maurícia, capital do Brasil-Holandês que Nassau construiu em Recife.

“Então, posso afirmar que a Maurícia Kuit é semelhante à cerveja que Maurício de Nassau tomava em Recife?”, perguntei ao pesquisador Marcusso. “Com certeza, ainda que esta de agora é uma releitura”, ponderou ele.

Como alemão – sim, ele nasceu no que é hoje a Alemanha – e a serviço de uma empresa do Reino dos Países Baixos, ouso afirmar que Nassau, até por afinidades culturais, preferia cerveja ao vinho.

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O geógrafo e sommelier de cerveja, Eduardo Macusso, na apresentação da Maurícia Kuit

Para produzir cerveja em Recife, a capital do Brasil-Holandês, o governador trouxe em 1640 um mestre-cervejeiro da cidade de Haarlem – um dos principais polos cervejeiros dos Países Baixos da época. Seu nome: Dirck Dicx (1603-1650, sem certeza da data da morte).

“A produção iniciou-se em 1641 em La Fontaine, a antiga casa de descanso de Nassau. Aqui é importante destacar que a produção só foi liberada após o pagamento de 1.500 florins por quatro anos, o que equivale aproximadamente a R$ 100 mil por ano de aluguel. Assim, podemos afirmar que a primeira cervejaria do Brasil foi uma ´cigana´”, contou Marcusso durante sua apresentação.

O termo ´cigana´ refere-se quando a bebida é produzida e engarrafada numa cervejaria que não pertence ao detentor da receita. Podendo este fabricar ainda em qualquer cidade que tenha uma cervejaria que aceite essa condição, sem um endereço fixo – daí a referência a parte do povo cigano (também conhecido, entre outros nomes, por roma, romani ou sinti), ainda nômade.

O processo de produção ´cigano´ é muito comum no Brasil e no mundo.

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O mestre-cervejeiro Dirck Dicx (no destaque) na apresentação de Marcusso: autor da primeira cerveja maltada do Brasil

“Pouco se sabe sobre a produção, apenas que era uma cerveja swaar (cerveja forte, em neerlandês) feita com malte e açúcar”, afirmou o pesquisador, que é paulista de Boituva – distante cerca de 120 quilômetros da capital e considerada capital nacional do paraquedismo e balonismo.

Em Haarlem, Dicx possivelmente utilizava malte de cevada, trigo e aveia, insumos facilmente encontrados por lá. Em Recife do século 17 estes ingredientes não chegavam frequentemente.

Tudo indica que Dicx acrescentava o abundante açúcar produzido nos engenhos pernambucanos na adaptação de sua receita feita na Europa. Com isso driblava a falta dos insumos principais.

“O açúcar aí representa o componente brasileiro, a ´brasilidade´ da cerveja do Dicx”, afirmou Marcusso. “Imagino que ele usava açúcar mascavo, portanto a bebida devia ser escura”, emendou ele.

“Por isso, chamamos essa cerveja de Brazilian Kuit, uma releitura da releitura da Kuit original com adição de açúcar”, completa Braga, no comunicado de imprensa do lançamento. Há ainda os termos Kuyt Koyt para o estilo da bebida.

“A recriação desta receita foi uma viagem histórica e um grande desafio. Utilizando técnicas modernas para reviver uma receita que simboliza o início da cervejaria no Brasil, nos conectamos com a tradição dos primeiros cervejeiros no Recife. Este lançamento é uma celebração da nossa história, reafirmando o compromisso da Cervejaria Nacional, com a inovação e a tradição.”

Maurícia Kuit relembra cerveja tomada no Brasil-Holandês Foto Imagem de Internet
Quadro de João Maurício de Nassau-Siegen (imagem de internet)

“Foi muito prazeroso pesquisar sobre essa história e mais ainda poder transformá-la em realidade”, resumiu Marcusso, também por meio de uma nota. “Isso mostra que o Brasil tem uma riquíssima cultura cervejeira e temos muito ainda para explorá-la.”

Em relação ao sabor da Maurícia Kuit, adorei. Cerveja levemente cremosa e com teor alcoólico de 7,5%. Que gostooooooso!

Na avaliação profissional do mestre-cervejeiro da Nacional, o aroma revela “notas de fermentação, lembrando levemente banana e aromas de cereais”. Sobre a coloração: “dourada, com turbidez mediana e espuma branca e cremosa”.

Como impressão geral, na boca, Braga descreve “uma leve cremosidade vinda da aveia e do trigo, mas com corpo leve. Também ocorre a percepção do álcool (7,5%) pelo aquecimento da boca ao final do gole”.

Em relação à harmonização, Braga disse que combina com “salame, massas ao molho pesto e ninho de nozes”.

FICHA TÉCNICA:
Nome: Maurícia Kuit
Tipo: Kuit (Kuyt/Koyt)
Produção: 500 litros
Ingredientes: malte de cevada, aveia, trigo, lúpulo e levedura
Características: SRM 7, teor alcóolico 7,5% e IBU 25
Fonte: Cervejaria Nacional

Super recomendo o consumo responsável da Maurícia Kuit. Saúde!

Confira os preços passados pela Cervejaria Nacional: “Ifood e Rappi: R$ 52 (um litro); Entrega Direta: R$ 42 (um litro); Varejo: R$ 22 (330 ml) e R$ 28 (570 ml)”.

Para saber o endereço e os horários da cervejaria, clique aqui.

*O QUE GOSTOSO! foi ao lançamento da Maurícia Kuit a convite da Cervejaria Nacional

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