por Manuela Bergamim, da EMBRAPA FLORESTAS
Estudo recente realizado pela Embrapa Florestas (PR) em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Universidade Federal da Paraíba (UFPB) registrou a presença de dois grupos de prebióticos no pinhão: o amido resistente e o FOS (fructooligossacarídeos). Ambas as substâncias têm capacidade de estimular probióticos, ou seja, microrganismos benéficos presentes em um ecossistema intestinal saudável.
“Os relatos da presença de compostos fenólicos, amido resistente e minerais como fósforo, potássio e magnésio, no pinhão, já eram de domínio da ciência. No entanto, a presença de Fos (frutooligossacarídeos) na semente de araucária é um novo e importante achado”, explica a pesquisadora da Embrapa Catie Godoy, coordenadora do projeto Pinalim, que deu origem à investigação.
Até o momento, segundo ela, esses compostos tinham sido observados em outras fontes vegetais, como o yacon, a alcachofra, o aspargo, a chicória e outros. A cientista acredita que a descoberta pode aumentar o interesse em consumir pinhão com foco em uma dieta saudável.
O estudo foi publicado na revista Food and Nutrition Sciences com o título Evaluation of the potential of Araucaria angustifolia seeds as source of oligosaccharides, resistant starch and growth of probiotic bacteria.

De acordo com Godoy, os resultados são otimistas e devem ampliar as pesquisas com a semente da araucária, uma árvore pré-histórica, que se encontra na lista de espécie ameaçadas, limitando-se atualmente às populações remanescentes da Floresta Ombrófila Mista.
Probióticos são bactérias e leveduras benéficas à saúde que vivem naturalmente no intestino, que ajudam na digestão dos alimentos e também a proteger o organismo contra doenças.
Os probióticos também são encontrados em alimentos fermentados que contêm bactérias saudáveis na composição, como por exemplo o iogurte, o kefir, o chucrute e a kombucha.
Já os prebióticos são um tipo de carboidrato rico em fibras não digeríveis, que servem de alimento para bactérias e leveduras que vivem no intestino. Ou seja, prebióticos são alimentos que o organismo não consegue digerir e que são fermentados pelas bactérias presentes na flora intestinal. Exemplos de alimentos prebióticos são aqueles ricos em fibras como os vegetais, os grãos integrais e as frutas.
Em resumo, probiótico é a própria bactéria e prebiótico é o alimento dela. Tanto o prebiótico quanto o probiótico ajudam a manter ou recuperar a saúde da flora intestinal, além de melhorar a digestão.
Três variedades diferentes de pinhão foram analisadas, Sancti josephi, Angustifolia e Caiova, colhidas em diferentes épocas do ano, correspondendo a diferentes estágios de maturação.

Os resultados do estudo foram obtidos por meio de uma série de métodos experimentais e análises da composição química dos oligossacarídeos e amido resistente. Também foram realizadas: avaliação do crescimento de bactérias para investigar o efeito prebiótico do amido resistente e análise estatística dos dados para determinar as diferenças observadas entre as variedades de pinhão em relação ao conteúdo de oligossacarídeos e ao crescimento bacteriano.
As pesquisas foram conduzidas em parceria com a professora da UFV Célia Lúcia de Luces Fortes Ferreira, que está entre as maiores especialistas do País em estudos com probióticos.
“O amido resistente e o Fos são metabolizados pelos probióticos, mantendo a presença constante dessas bactérias benéficas no intestino. Ao crescerem em presença dessas substâncias, as bactérias como, por exemplo, as do gênero Bifidobacterium aqui estudadas, acumulam no ambiente, principalmente ácido butírico, e outras substâncias essenciais para a ´renovação´ do epitélio intestinal. Um ambiente intestinal saudável diminui risco de diversas doenças locais e sistêmicas”, detalha a professora.
Nesse estudo também foi testado se o amido de pinhão promoveria o crescimento de bactérias benéficas, comparando-o com a dextrose (carboidrato simples e de rápida absorção pelo organismo). Observou-se que, para algumas bactérias, o amido de pinhão promoveu maior crescimento do que o estudo controle, demonstrando ser efetivo na multiplicação de bactérias probióticas, com destaque para os probióticos L. plantarum e B. breve.
“Esse efeito se deve à presença de amido resistente no pinhão, que contém uma porção que escapa da digestão e da absorção no intestino delgado e é fermentada no intestino grosso, com a produção de ácidos graxos de cadeia curta, promovendo vários benefícios a saúde”, afirma Célia.

O impacto do amido resistente no metabolismo dessas bactérias ainda não está completamente elucidado, por isso, mais pesquisas serão necessárias para comprovar esse possível efeito prebiótico, segundo a professora do Departamento de Tecnologia de Alimentos do Centro de Tecnologia e Desenvolvimento Regional do Centro de Tecnologia da UFPB, Haíssa Cardarelli.
Haíssa e Fernanda Pereira Santos, sua orientanda de mestrado, darão seguimento aos estudos. “Os resultados preliminares são muito promissores e, vamos utilizar a farinha de pinhão como fonte de crescimento para probióticos, um produto desenvolvido com tecnologia Embrapa e que está em vias de produção industrial”, conta a professora.
Coordenadora do programa de pós-graduação em Nutrição Clínica e Funcional do Instituto Valéria Paschoal, Natália Marques destaca o pioneirismo do estudo na detecção de prebióticos no pinhão.
“As contribuições para a saúde humana incluem a prevenção de diversas doenças crônicas. A partir do momento que valorizamos a inclusão do pinhão na alimentação do brasileiro, cria-se um estímulo positivo da manutenção das florestas de araucária, de desenvolvimento de campanhas que estimulem a sua utilização e desenvolvimento de novos produtos com o pinhão”, enfatiza.
A presença de Fos e o comportamento prebiótico nas sementes de araucaria angustifolia abre várias possibilidades, tanto para a pesquisa quanto para a aplicação prática. Essa descoberta pode trazer oportunidades para o desenvolvimento de produtos alimentares inovadores, que visam à saúde digestiva, como petiscos, cereais matinais, suplementos e alimentos funcionais, ampliando o mercado para esse alimento tradicional.

O fructooligossacarídeos (Fos) são açúcares não convencionais, não metabolizados pelo organismo humano e não calóricos, denominados de prebióticos.
Alimentos contendo Fos contribuem significativamente para a manutenção do ecossistema intestinal, promovendo o crescimento e adesão de bactérias benéficas como alguns da família Lactobacillaceae e do gênero Bifidobacteria ao trato gastrointestinal. Também contribuem para a inibição de bactérias que associadas a desequilíbrios e doenças, como o Clostridium perfringens.
Quando atuam no resgate do equilíbrio da microbiota intestinal, os Fos contribuem também com a redução do excesso de colesterol (atividade hipolipemiante), redução do excesso de glicose no sangue (hipoglicêmica), aumento na absorção de vitaminas e minerais. Dessa maneira, podemos destacar a válida contribuição do consumo de Fos na prevenção da osteoporose, de doenças cardiovasculares, na redução de problemas digestivos e sensibilidades alimentares.
Comercialmente, os Fos são usados como suplementos e o preço pode custar até R$ 1 por grama, com dose recomendada variando de quatro gramas até 17 gramas por dia. Por isso, para atingir a porção recomendada, o consumidor teria que ingerir grandes quantidades de pinhão, no entanto, o benefício decorre da combinação do pinhão com outros alimentos, obtendo dessa forma, uma dieta mais equilibrada e propícia à saúde do intestino. Esse status de saúde intestinal é essencial para um adequado sistema imunológico e também garante uma boa saúde mental.
















