por CLAUDIO SCHAPOCHNIK_Lourmarin, Luberon/FRANÇA*
Assim que desço do táxi, olho de um lado e vejo o château (castelo, em francês), do século 15, e do outro, observo o panorama da cidadezinha que soma pouco mais de 1.000 habitantes (2022). Estou em Lourmarin – fala-se algo como lurmarrã, em francês.
É a minha primeira parada no destino de Luberon – pronuncia-se liberrôn, na língua francesa –, na região Provence-Alpes-Côte d´Azur, no Sudeste da França.





Lourmarin figura na lista d´Os Mais Belos Vilarejos da França. Modestamente, chancelo a escolha pois o lugar é belíssimo mesmo.
Antes de visitar o Château de Lourmarin, vale caminhar sem pressa pelas ruas quase sempre estreitas – resquício da urbanização de séculos atrás.
O que se vê, além das residências em prédios de dois, três andares, com floreiras bem cuidadas nas entradas, é uma seleção de restaurantes, lojas de decoração e lembranças e galerias de arte.

TERRENO PARA SECAR A ROUPA
Ao caminhar aqui e acolá, chega-se a um terreno gramado com algumas árvores. A área é pública e tem uma finalidade singular: lugar para secar as roupas dos habitantes que assim quiserem.
Na tarde da minha visita a Lourmarin, o terreno para secar as roupas tinha várias peças, pregadas num fio, balançando ao vento e secando ainda pelo forte calor.
“Atrativo” curioso e interessante pela função. Jamais tinha visto algo semelhante.


JUDIARIA
Na agradável caminhada por Lourmarin, duas placas chamam a atenção para o passado judaico local: Rue de la Juiverie e Montée de la Juiverie, respectivamente, Rua da Judiaria e Subida da Judiaria.
As duas placas informam que aqueles logradouros estavam na área da antiga judiaria – nome do bairro onde os judeus viviam.
Naquele período havia comunidades judaicas não apenas em Lourmarin, mas em várias cidades da região de Luberon graças ao chamado Papado de Avignon.


Motivado por razões políticas e de segurança, o papa Clemente V, francês, transferiu em 1309 a sede papal de Roma para a Avignon, na França. A sede da Igreja Católica Apostólica Romana permaneceu em terras francesas até 1377, quando voltou para Roma, por iniciativa do papa Gregório XI.
Nesse intervalo, os papas de Avignon concederam liberdade para os judeus viverem, trabalharem e praticarem sua fé nos territórios papais – incluindo aí o que se conhece hoje por Luberon.
O preço dessa liberdade era que a comunidade judaica tinha de pagar tributos especiais aos papas.
Esses judeus ganharam o apelido de juifs du pape (judeus do papa, em francês).

MASSACRE
Outro grupo religioso, originário do catolicismo e depois aderindo ao protestantismo – o valdense –, foi alvo de um massacre em 1545 na cidade.
A palavra valdense vem do fundador dessa corrente religiosa, o francês Pierre Valdès, no final do século 12. Ele pregava o retorno às origens do cristianismo e rejeitava o poder de Roma. Logo, foi considerado um movimento herético. Durante a época da Inquisição foi duramente reprimido e massacrado.
Em Lourmarin, a matança dos valdenses veio acompanhada de um incêndio que destruiu parcialmente o vilarejo.

Com o passar dos anos, a população sobrevivente colaborou para a recuperação, não deixando Lourmarin morrer.
Nos séculos seguintes, a cidade se desenvolveu fortemente graças à agricultura, com o cultivo, por exemplo, de oliveiras e vinhedos – presentes até hoje –, e à indústria têxtil.
E foi um lourmarinois – o gentílico masculino local – o inventor do tear de linho: Philippe Henri de Girard (1775-18450.



ACERVO DO CASTELO É RICO E VARIADO
Ícone local, o Château de Lourmarin foi construído no final do século 15 por Foulques d´Agoult. É considerado o primeiro castelo renascentista da Provença.
Após ampliações, passar por vários donos e com a manutenção bastante debilitada, o castelo quase não chegaria em pé ao início do século 20. Graças ao empresário e mecenas Robert Laurent-Vibert (1884-1925), isso não ocorreu.




No alto, coleção de pratos (à esquerda) e uma das lareiras (à direita) do castelo; abaixo, livro de cirurgia; acervo é bastante variado (fotos Claudio Schapochnik/Que Gostoso!)

Laurent-Vibert comprou a propriedade, a restaurou e depois a doou o castelo e todo o acervo à Academia de Ciências, Agricultura, Arte e Belas Letras de Aix-en-Provence.
Dentro do castelo, há uma exposição permanente – um verdadeiro pot-pourri, desde livros, pôsteres a instrumentos musicais e um samovar russo – bastante interessante. Do jardim, no térreo, a linda vista do panorama da cidade e do maciço de Luberon convidam para fotos.




Por toda essa experiência em Lourmarin, minha estreia foi, seguramente, com o pé direito.
*O QUE GOSTOSO! viajou em Luberon com apoio do Destination Luberon, representado no Brasil pela CC Hotels, e seguro de viagem Intermac









