por CLAUDIO SCHAPOCHNIK*
Uma “portinha” no bairro do Itaim Bibi, como definiu a proprietária, a advogada Amélia Athias Barcessat, une São Paulo a Belém sem escalas ou conexões. É lá que fica o Restaurante e Empório Deliamazon, no local desde outubro de 2022 e que vende produtos alimentícios e bebidas oriundos do Estado do Pará, no térreo; e que serve pratos de receitas originais paraenses, no primeiro andar.

“Vendemos ´saudade´”, disse a simpática Amélia, emocionada, nascida em Belém. “A ligação do paraense com a sua comida típica é muito forte, ainda mais quando ele não está bastante longe do Pará. Aqui em São Paulo, ele vai encontrar essa ligação culinária e se satisfazer”, completou ela, que deixou o mercado financeiro para se dedicar à área da alimentação.
E quem não é paraense, pode ir ao Deliamazon? “Claro que pode! Aqui vem ainda muitos nortistas – vale lembrar que a cozinha amazônica é muito diversa –, pessoas de outros países e pessoas que vêm pela curiosidade de provar algo realmente diferente”, emendou Amélia.


“Comida do Pará é uma culinária ancestral, com grande influência dos povos indígenas e depois dos portugueses e africanos”, definiu a proprietária, descendente de famílias judias do Marrocos, da cidade de Tetuán, e da Turquia, da cidade de Esmirna, que imigraram para o Brasil.
“Aqui no Deliamazon, você come e pode comprar vários ingredientes para fazer as receitas na sua casa”, destacou Amélia.

No térreo, há muitos produtos Made in Pará: as cervejas Cerpa e Tijuca, licor de jambu, bolachinhas (como a Monteiro Lopes), farinhas, pimentas, farofas (em versões com jambu e castanha-do-Pará), açaí etc.



Perguntei à Amélia a opinião dela sobre a forma como se come açaí aqui em São Paulo e também no Rio de Janeiro – com xarope de guaraná, açúcar, frutas, leite condensado e tantas outras coisas por cima.
“No Pará, comemos açaí, que não é doce, com peixe e farinha. Acho que não é pecado colocar açúcar no açaí, mas o ´estranhamento´ de ver a forma como se come açaí em São Paulo ou no Rio é o mesmo que as pessoas desses dois Estados têm dos paraenses”, respondeu ela.
Entendi que ela respeita o gosto de cada um e, individualmente, prefere como se come no seu querido Pará.


Em relação ao restaurante, no primeiro andar, Amélia contou que “o menu é voltado à comida raiz do Pará, aquela feita em casa, preparada pela mãe, pela avó, sabe? Aqui não é gourmetizada”.
E foi aqui em São Paulo que Amélia começou a cozinhar. “Foi um dom que Deus me deu e também o que aprendi transmitido pelos meus familiares”, explicou ele sobre colocar a mão na massa.
No restaurante, a proprietária cozinha e tem a ajuda de uma cozinheira.
As mesas estão dispostas em um salão muito, muito amplo, quase todo coberto por um tapete vermelho. Nesse imóvel, contou Amélia, funcionou um bingo no passado. A decoração, achei interessante, é variada, original e 100% voltada ao Pará.




Ainda que a decoração te transporte para o Pará, senti falta de janelas no salão, de um ar externo entrando.
Em relação ao almoço, onde dividi a mesa com um de meus irmãos, Nelson, escolhemos algumas opções e outras foram sugeridas pela dona do Deliamazon.

De entrada: duas unhas da caranguejo (R$ 25 cada); um pato no tucupi (R$ 75); um menu degustação para duas pessoas (R$ 160), que vem com arroz paraense, tacacá, maniçoba, arroz branco e vatapá; cremes de cupuaçu e bacuri; água e suco de cupuaçu (300 ml, R$ 15).
A unha de caranguejo estava ótima. Bem fritinha, massa delicada e bastante recheio de carne de caranguejo super bem temperada. Repetiria. Show. Que gostooooooso!


O pato no tucupi veio com uma bela coxa da ave, tucupi e jambu e uma porção de arroz branco. Visualmente é lindo, com o contraste das cores laranja, do tucupi, e verde bem acentuado, do jambu – saborosa verdura que deixa a língua dormente.
Provei um pedaço do pato, que estava bom, mas poderia estar mais macio. Realmente, é uma delícia essa combinação paraense. Que gostooooooso!

Sobre o menu degustação, que veio com cinco pratos, o que mais me gostei foi o vatapá paraense. Não gostei da maniçoba.
O vatapá do Pará é diferente do vatapá da Bahia – este último leva amendoim, pão amanhecido e castanha-de-caju, ingredientes não presentes na versão paraense.
O vatapá paraense, que no cardápio, estava descrito como feito com “creme de camarão seco, azeite de dendê, leite de coco e creme de leite”, estava excelente. De uma cor amarela, senti sabores acentuados do camarão e dendê. Excelente. Que gostooooooso!
O arroz paraense é uma fartura que só, pois leva camarão seco, tucupi e jambu. Bom. Que gostooooooso!

O tacacá, feito com “tucupi, jambu, camarão seco e goma de tapioca hidratada (opcional)”, como li no cardápio, consegui tomar. Por que consegui? Porque não veio com a goma. Como está escrito no menu, é “opcional”.
A primeira vez que tomei um tacacá, na praça em frente ao imponente Teatro Amazonas, em Manaus, não curti a goma de tapioca. Estava espessa e me causou um leve enjoo. Por isso, só comi o jambu e o camarão.
Sem a goma, o tacacá do Deliamazon deu para saboreá-lo totalmente. E estava bom. Que gostooooooso!

A maniçoba, o prato que não gostei, é conhecido como a feijoada paraense – ainda que não leve feijão. Possui cor verde bem escura. A receita leva folhas de mandioca brava (maniva) e carnes bovina e suína.
As folhas são cozidas por alguns dias. O motivo é crucial: eliminar 100% o extremamente tóxico ácido cianídrico presente, que pode levar à morte de quem ingerir a folha não cozida adequadamente.
Provei a maniçoba com arroz branco e achei o sabor muito forte. Depois da primeira garfada e dessa impressão, tentei várias outras garfadas, mas não curti.
Comi sempre com uma pimenta amarela no tucupi, extremamente cheirosa e picante. Boa demais. Que gostooooooso!
Para beber, adorei o suco de cupuaçu, mistura de doce e ácido. Ótimo. Que gostooooooso!
No final, as sobremesas estavam deliciosas: cremes de cupuaçu e bacuri, com leve vantagem da primeira opção. Pelo mesmo motivo do suco. Que gostooooooso!


Ao final, posso afirmar que a comida do Deliamazon é saborosa. Vale.
Ah! A Amélia tem uma barraca na feira em frente ao Museu do Ipiranga, também na Zona Sul de São Paulo. Lá, sempre aos domingos e feriados, das 9h às 18h, ela vende produtos e pratos do Pará.

*O QUE GOSTOSO! almoçou a convite da proprietária
SERVIÇO:
Restaurante e Empório Deliamazon
Rua João Cachoeira, 477, Itaim Bibi, São Paulo/SP
Celular e Whatsapp: (11) 99655-5251
Horário: segunda a sábado, 10h às 18h
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